Uncle Budd, o “green truck” do Harlem

Caminhão do Uncle Budd na saída do metrô na rua 96, no Upper West Side, Manhattan.

Quantas vezes eu não fui abordado como supostamente sendo vendedor de maconha na Washington Square, uma das praças mais icônicas de Nova York e reduto de intelectuais, estudantes e boêmios que frequentam o caro e gentrificado West Village, região sul do distrito de Manhattan e berço do movimento gay. Como negro, nada mais “natural” do que eu estar ali, na área que concentra os principais prédios da New York University (NYU), para fornecer weed para os alunos e alunas da cara e rica instituição de ensino cuja biblioteca principal eu passava boas horas lendo.

Essas lembranças de racismo cotidiano me fazem rir sozinho quando vêm a minha cabeça. Isso ocorria com frequência há mais de dez anos. Contudo, a forma como a cidade de Nova York lida com a weed, ganja, diamba, chronic, pot, budd e tantos outros nomes que a maconha tem por aqui, mudou. A ilegalidade acabou. Em abril de 2021 o Empire State se tornou o décimo nono estado dos Estados Unidos da América a descriminalizar o consumo e porte de maconha. De forma geral, isso significa que os policiais da The New York Police Department (NYPD) – “the New York finest” – não abordam mais pessoas fumando maconha em via pública.

Sim, você pode andar tranquilamente pelas calçadas da Big Apple fumando um belo baseado. Não é à toa que em qualquer bodega nova-iorquina que vende lanches, refrigerantes, cervejas e outros itens básicos de alimentação e sobrevivência urbana já incluem entre eles apetrechos bastante conhecidos dos apreciadores de cannabis como cachimbos dos mais variados tipos, bongs, dixavadores, isqueiros, maçaricos, cinzeiros, sedas, piteiras e outros acessórios necessários para sessões individuais ou coletivas de apreciação da erva. Já há restaurantes em Nova York que tem áreas específicas para os apreciadores da erva fumarem seus baseados e em alguns deles os frequentadores recebem o seu “beck” já bolado ao entrar no estabelecimento. Um detalhe interessante é que nesses mesmos restaurantes é proibido o consumo de tabaco.

Quando contei essa novidade a alguns amigos do Brasil eles me perguntaram se NYC viria a se tornar uma Amsterdam. Não ainda. Mesmo com a descriminalização ainda não há uma legislação específica que regule a compra e venda de maconha. Afirmo isso porque a pergunta lógica que qualquer leitor ou leitora faria é: “E onde eu compro a minha erva?”. Essa área de sombra na lei surgiu por conta de que os legisladores ainda estão formulando as regras relativas a mercantilização da substância verdinha. A justificativa para o delay é a mudança no governo estadual ocorrida devido a saída do governador Andrew Cuomo – envolvido em um escândalo de assédio sexual – e a entrada de Kathy Hochul em seu lugar, essa última apontada como a grande novidade na política do Empire State (leia mais AQUI).

Mas nesse vai e vem de indecisões jurídicas e trocas políticas, uma dupla de jovens negros resolveu montar um negócio no ainda incipiente mercado de weed novaiorquino. Foi assim que surgiu o Green Truck, um caminhão que “doa” maconha na rua 116 do Harlem. Há outros cinco caminhões distribuídos em diferentes partes de Manhattan. O negócio já foi objeto de reportagem da revista Rolling Stone (leia AQUI) e até mesmo do canal conservador Fox News (assista AQUI em inglês).

Dias desses resolvi conhecer o Uncle Budd. Como estou no Brooklyn, peguei o trem Q, na estação mais próxima de casa, troquei para o trem expresso D em direção ao The Bronx, cruzando a Manhattan Bridge e seguindo por downtown em direção à uptown. Desci na estação da West 125th Street – que os gringos chamam de “one twenty fifth” – e cheguei à West 116 Street pegando o trem local C. Um trajeto de uma hora. Logo ao sair da estação de metrô, subindo as escadas, você dá de frente com o caminhãozinho (mais próximo de um micro ônibus de lotação na concepção paulistana da “coisa”) todo luminoso com os dizeres em neon “Uncle Budd” (literalmente “Tio Maconha”).

Nada de especial dentro do truck. Uma sister e um brother atendendo a rapaziada. Como cheguei em cima da hora de fechar (22h), não tive muito tempo para interagir com os dois. Shawn, o brother que me atendeu, me forneceu algumas informações sobre as “flowers” que eles tinham disponíveis (há várias outras paradas disponíveis, veja AQUI). Estava em busca de uma que vi no menu intitulada Walter White (homenagem ao personagem clássico do professor de química da série Breaking Bad interpretado pelo ator Bryan Cranston leia mais AQUI), com maior concentração de sativa em detrimento de indica. De forma geral, são essas as duas substâncias que organizam o tipo de sensação fornecida pela erva. Sativa é mais indicada para gerar sensação de euforia, foco, clareza mental, estímulo ao apetite e combate a depressão. Já a indica produz relaxamento, sono e combate ansiedade, estresse e insônia. No Brasil, como se tem pouco controle sobre como a erva é produzida, é mais difícil de saber as dosagens de sativa, indica, THC e CBD. Acabei pegando a Strawberry Melted.

Foto roubada da reportagem da revista Rolling Stone com o menu do Uncle Budd.

O mais divertido do Uncle Budd é que os proprietários não usam o termo “venda”, justamente para contornar a legislação. No lugar dos valores das flowers e outros produtos encontra-se a expressão “doação sugerida”. Tecnicamente, você está fazendo uma doação pelo produto e não comprando o mesmo. Como disse um amigo meu sobre o incipiente mercado de weed em NYC, “a maconha é o novo vinho da Califórnia” em termos de negócios emergentes e rentáveis na economia americana. Não há projeções seguras, mas uma rápida pesquisa na Internet aponta que o mercado de cannabis rendeu em torno de US$ 20.47 bilhões em 2020 e tem projeções de render em torno de US$ 197.74 bilhões até o ano de 2028 (leia AQUI). O mercado de cannabis envolve desde o comércio de maconha para fins recreativos até uma série de produtos – cosméticos, doces, roupas, etc. – que tem como matéria prima a erva em suas diversas formas.

Nesse aspecto, muitos ativistas tem levantado a questão da reparação. Afro-Americanos, população negra em geral e Latinos nos Estados Unidos têm sido os grupos mais prejudicados pela política de guerra às drogas instaurada desde o final dos anos 1960 no governo de Richard Nixon (1969-1974) e que tomou mais fôlego com uma legislação dura e racista a partir dos anos 1980 na administração de Ronald Reagan (1981-1989). A legislação que criminalizava a posse e consumo de maconha foi responsável por encarcerar um número expressivo de pessoas dessas comunidades nas quais o consumo de maconha está presente na história e cotidiano das mesmas. O documentário Grass is Greener (2019), disponível na plataforma Netflix, apresenta essa discussão evidenciando as contradições e injustiças que um nascente mercado de cannabis que não considere essas desigualdades pode reproduzir (assista o trailer do filme AQUI).

De acordo com o artigo da Rolling Stone, os empreendedores do Uncle Budd retornam parte dos lucros obtidos nas “doações” em apoio a projetos em comunidades afro-americanas. Ativistas tem defendido que o Estado americano reserve parte do mercado de cannabis a empreendedores/as negros/as e facilite o acesso dos mesmos a essa forma de negócio. Figuras do universo afro-americano que há muito tempo tem a sua imagem associada ao consumo de maconha tem desenvolvido negócios nessa área como são os casos do ex lutador de boxe Mike Tyson e dos ex jogadores da NBA Allen Iverson e Al Harrington (leia mais AQUI e AQUI). Contudo, os altos custos de investimento para abrir um negócio no mercado de cannabis e as exigências colocadas pela legislação que envolvem revisão de antecedentes criminais impedem que muitos empreendedores/as negros/as se estabeleçam nesse novo nicho.

Enquanto isso, mais e mais a maconha vai deixando de ser algo associado a algo marginal e criminoso nos Estados Unidos para tomar ares de mercadoria cult. Lá se vão quase setenta anos desde que o sociólogo americano Howard Becker publicou seu artigo clássico Becoming a Marihuana User (1953) no qual o consumo da substância é enquadrado dentro da perspectiva teórica da sociologia do desvio. Nesse sentido, consumir maconha passava por uma dimensão de quebra de regras, disfuncionalidade e crime que criavam o estigma do/a “maconheiro/a” como alguém perigoso e a ser evitado. Por outro lado, vale lembrar que desde os anos 1940 as autoridades novaioquinas já estavam cientes de que a maconha é inofensiva. Isso é apontado no estudo sociológico realizado pela New York Academy of Medicine e entitulado La Guardia Report (leia as conclusões do estudo AQUI; agradeço ao meu brother jornalista Leandro Machado pela lembrança do relatório).

Uma ótima contraposição contemporâneo ao texto de Becker é o capítulo dedicado a maconha no recente livro de Carl Hart, neurocientista e professor da Columbia University. Em seu livro Drogas Para Adultos (2021) Hart faz uma discussão séria, livre de preconceitos, com bases científicas e posicionamento político a respeito do consumo de substâncias enquadradas como drogas ilícitas. De forma geral, o pesquisador afirma que temos nos comportado como crianças indefesas no que diz respeito a regulação do Estado e no debate sobre drogas. Seguindo seu raciocínio, é necessário crescer, assumir responsabilidades, fazer o debate de forma adulta assim como reconhecer que a criminalização gera mais problemas do que soluções. Não coincidentemente, o título do capítulo dedicado a maconha é “Cannabis: fazendo germinar as sementes da liberdade”.

Versão em português do livro do neurocientista e professor da Columbia University, Carl Hart.

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