Sobre a frase “PRETOS NO TOPO”

“Pretos no topo” é uma frase que tem sido muito usada nos últimos anos. E nos últimos tempos tem sido rebatida e ironizada por alguns. Tipo: “ninguém deveria estar no topo”. O quê, por um lado, não está errado. Mas a negritude carrega tradições que vão muito além do óbvio, do literal. E, pra enxergar as coisas por uma perspectiva negra, temos que entender não só as várias subjetividades, mas também nossas questões ancestrais.

Eu tento não olhar com banalidade o quê o povo preto produz, adota, reproduz… Porque, geralmente, algo que se populariza demais entre nós e parece novo, costuma nos religar a outros momentos da nossa existência ou a tradições culturais que se transformaram. Vou puxar aqui algo escrito pelo Professor Muniz Sodré em seu livro “Samba, o dono do corpo”, que fala especificamente sobre o Samba, mas que serve pra todas as manifestações negras:

“Dentro da forma do samba, os significados linguísticos assumem matizes próprios, cambiantes, míticos”

No texto, Muniz explica que a palavra “morro” usada nos sambas designa um modo de significação. Um lugar de oposição à planície. E continua com o depoimento de um antigo sambista: “Nós fazíamos samba na planície. Quando a polícia vinha, nos escondíamos no morro. Lá era fácil esconder”. É importante relembrarmos: o samba, há algumas décadas, era perseguido e criminalizado pelo Estado.

Sobre os Quilombos, Maroons etc: “eram aldeias que ficavam escondidas nas matas, em lugares preferencialmente inacessíveis, como o alto das montanhas e grutas, e era onde então os escravos se reuniam e conseguiam levar uma vida livre.”

Voltando ao Muniz, ele conta também sobre fuga de negros escravizados, liderados por tio Ajayí, que se libertaram ao chegarem no topo de um morro/montanha. “Como se pode perceber, o morro/topo significa um espaço mítico de liberdade”. O enaltecimento da vida no morro seria uma referência a “um dispositivo simbólico capaz de minar o sistema de valor da cultura dominante.”

O morro seria a utopia do samba, sendo utopia não um sonho ou devaneio, “mas a instauração filosófica de uma ordem alternativa, onde se contestam os termos vigentes no real-histórico. (…) Nesse espaço utópico, as palavras encontram um outro campo semântico, o campo de outra posição cultural.”

O enaltecimento do morro e vida no morro foi criticado e considerado alienante. Como “eu só quero é ser feliz / andar tranquilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”, funk gravado por Cidinho e Doca, também foi. 

Para alguns “Pretos no topo”, embora de outro modo, também ganha o significado de alienação. As idealizações sobre o topo não necessariamente partem de uma ideia consciente sobre um lugar utópico, mítico. Vai ter quem repita a frase e pense que o topo é o primeiro lugar no pódio ou a possibilidade de consumir sem limites, como se isso representasse uma possibilidade de emancipação para si ou para o povo preto. E não representa. Mas o que trago aqui é uma análise que parte do ponto-de-vista da tradição musical negra e remonta o significado histórico do topo/morro para a diáspora africana. É importante tentar compreender as manifestações negras (de todo tipo) sob um olhar negro, que leva em consideração a nossa história.

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Luccas Carlos, Djonga, BK e Baco Exú do Blues: alguns dos rappers da geração que popularizou a frase “Pretos no Topo”

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