O sagrado nas minhas avós.

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Nesses tempos de pensamento interno intenso, tenho lembrado muito das minhas avós. Nenhum motivo específico, mas é engraçado como consegui isolar por muito tempo a minha saudade delas. Aquela coisa de nem pensar para não doer.

Nessas de não doer, passaram-se mais de 5 anos e elas ressurgiram dentro de mim tão aos pouquinhos que só fui me dar conta do take over, e da saudade, quando sábado passado estava ouvindo Dona Clementina de Jesus no Canto II ( “Muriquinho piquinino, muriquinho piquinino”) e meus olhos marejaram até virar choro.

Dona Clementina me lembra demais as minhas avós. Muito mais Dona Nair, mãe de minha mãe, do que Dona Jaucila, mãe de meu pai, acho que por conta da aparência física mais próxima, mas vejo as duas ali. Eis que na mesma semana dou de cara como um documentário – ou seria um curta metragem? nunca sei – chamado Tarja Branca, sobre Congado, Maracatu , a importância de brincar e essas coisas bonitas, que a gente quase esquece quando está afogado nessa versão de Brasil protagonizada por homens brancos medíocres e odiosos.

Congado me lembra as histórias contadas sobre meus avós em Minas Gerais, minha mãe sempre disse muito orgulhosa que o pai dela era Rei do Congado em Alfenas. Me lembra mais um universo de coisas que eu gostaria de perguntar e conversar sobre, mas que ficaram perdidas nas memórias dos anciãos da família. Uma vontade de saber sobre as espadas de São Jorge nos vasos das casas da família há anos, e agora também na minha. Já até recebi explicações sobre o motivo, mas as minhas avós com certeza compartilhariam detalhes que ninguém mais poderia, coisas sobre a origem da origem. Inclusive entender porque a gente, lá em casa, sempre teve essa teimosia de ter muita fé sempre, mas não necessariamente uma religião específica. Uma fé que tá fincada nas estranhas de cada um, mesmo quando o bicho pega demais.

Comecei também a lembrar das minhas avós porque enxerguei parte delas nos meus gestos, nos meus rituais e na minha forma de olhar pro mundo. Ficou mais evidente neste período de recolhimento forçado do mundo, essa coisa da real, e profunda, convivência diária comigo mesma. Talvez eu seja a descendente que mais se pareça com as duas ao mesmo tempo: com uma fisicamente, é impressionante a semelhança, e com a outra no jeito, até no tom de voz. Um misto de mulheres que até pouco tempo atrás eu não gostava muito de pensar sobre, mas que hoje, apesar não ter feito 100% as pazes com, me alegra mais.

Penso que matriarcas pretas são importantes mesmo depois da partida. Presentes com a ausência, com aquele pedaço de história que guarda canções antigas, encantos, segredos, contos e mais um monte de coisas que parecem chegar pelo vento, mas que são recados de infância que ando recuperando aos poucos. Eu tenho muita saudade de todas as conversas que não tive com as minhas avós, ao mesmo tempo que sinto que muita coisa foi contada sem utilizar palavras.

Uma plantinha colocada estrategicamente num local da casa, os banhos de ervas em dias específicos da semana e do ano, os chás, os temperos, as velinhas acesas no topo da geladeira “porque vela precisa ficar acima da cabeça da gente, o plano é outro”, os grãos de feijão e milho jogados no telhado da casa ali no finzinho de cada inverno, as rezas em horários precisos do dia, os gestos para cumprimentar algumas pessoas específicas, o colar de contas e o terço dividindo espaço, a arruda atrás da orelha e os amuletos de proteção no bolso esquerdo. Saudade de perguntar e ouvir a mesmas respostas de sempre, com um sorrisinho no canto da boca.

“Mas por que vó? Porque precisa, não discute comigo que eu sou mais velha”.

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