Da poética de pedalar e viver

0C6BBB2A-C732-463B-8735-5828334AE92EA única certeza que se tem ao começar a pedalar é que em algum momento você cairá. Para uns, isso serve como um estímulo. Para outros, uma advertência para se manter bem longe das magrelas. Pedalar é tão arriscado quanto viver: o medo está sempre em ambos. Aprendi nos últimos anos que o divertido das duas coisas é controlar o medo e aproveitar o pedal.

6857E444-4897-424E-9EB4-E50D637D1BBAAs bicicletas entraram cedo na minha vida. Meu coroa sempre teve bicicletas modelos Barra Circular (Monark) ou Barra Forte (Caloi) quando eu era criança. Esses são modelos de bikes vinculadas a representação das classes populares nos anos 1970 e 1980.

Quando criança sonhava em acordar na manhã seguinte a noite de Natal e encontrar uma Monark ou Caloi embrulhada em algum canto da casa com o meu nome. Isso nunca aconteceu. Meus pais nunca tiveram grana para me presentear com uma magrela. Tive que me contentar com a bicicleta de meu velho.

8BD03E11-96D8-4505-B2E1-48A86E173491Aprender a pedalar nela foi um dos primeiros desafios a minha masculinidade: pesada e grande (acima do meu tamanho), tudo o que aumentava ainda mais a dificuldade em me equilibrar sobre duas rodas. Com muito esforço e persistência (além de quedas) aprendi.

Meu velho ia e voltava do trabalho pedalando. Nos momentos em que ele não estava usando a magrela eu dava meus rolês. Depois de aprender a pedalar vieram os “rólas”: termo que ciclistas usam para se referir as quedas. O pior deles nessa época foi um que cai com o tornozelo esquerdo enfiado no meio da roda. Não chequei a sofrer uma fratura, mas a luxação me deixou de molho por todas as férias escolares daquele ano. Em uma outra ocasião fui atropelado por um carro.

0C18681E-D4D7-4070-B156-F0680DC67549Meu pai ficava puto com as minhas quedas e barbeiragens, mas nunca me proibiu de pedalar na sua Barra Forte. E assim seguiu minha adolescência entre pedaladas na Barra Forte, jogos de basquete e tombos de skate.

Mas o desejo por uma magrela foi desaparecendo em meu horizonte aspiracional adolescente sendo trocado por suspiros em relação a veículos de quatro rodas. Meu pai nunca teve um carro e nem aprendeu a dirigir. Eu nunca tive carro e também não sei dirigir. Aliás, hoje não dou a mínima para carros, acho até mesmo démodé.

488EA182-C689-4303-9C01-92F6105FCF72Durante muito tempo também não pensei em bicicletas. Quando ainda morava em Nova Iorque, meu amigo Ernesto Carvalho comprou uma Bianchi modelo estrada (que por aqui chamamos de “speed”). Um dia de verão estávamos no Central Park e meu camarada ofereceu a sua bike para eu dar uma volta pelo parque. Acho que pedalei por cerca de cinco minutos os quais foram suficientes para eu rememorar minha infância e parte da adolescência. Depois de descer da bike de Ernesto decidi que iria adquirir uma magrela.

Anos se passaram desde esse dia no Central Park. Voltei para o Brasil e enfrentei uma fase de transição cercada por instabilidades de várias ordens: financeira, emocional, amorosa e acadêmica. Porém, a ideia de comprar uma bicicleta se mantinha. Comecei a namorar alguns modelos e visitar lojas e oficinas. Em 2015 finalmente comprei minha primeira bicicleta: uma Monark 10 ano 1978, raridade que encontrei visitando bicicletarias antigas.

1F22F93F-71E1-4162-848E-05E421FE4B65De lá para cá já comprei umas sete bicicletas. Dessas, três se tornaram presentes e as outras ficaram comigo. Uma foi destruída em uma tentativa de furto e outra foi de fato furtada. Uma terceira eu acabei vendendo por um preço camarada para um bike anjo super camarada que se apaixonou por ela. Continuei levando capotes, rólas e já fui atropelado algumas vezes. Em minha pior queda, quebrei o pulso esquerdo e tive que passar por uma cirurgia para a colocação de pinos. Juro que naquele momento pensei em me render aos apelos de minha mãe para que deixasse a bicicleta de lado e comprasse um carro.

Dois meses depois da queda peguei a mesma bike que havia me derrubado e a levei na Spokes – loja onde a havia comprado e hoje tenho grandes amigos. Pedi para os técnicos inverteram a roda traseira mudando a mesma de roda livre (free wheel) para fixa (fixie). Ainda estávamos vivendo nessa época o hype das bicicletas fixas e eu queria provar para mim mesmo que não só conseguiria voltar a andar de bicicleta depois da minha pior queda mas voltaria pedalando uma fixa cujo o nível de dificuldade é um pouco maior do que as bicicletas comuns. No meu primeiro rolê de fixa pensei que fosse morrer, pois nem mesmo sabia como para aquela merda. Sobrevivi a fixa e pedalei nela por mais de um ano até ela ser furtada quase em frente ao meu trabalho em uma noite de sábado.

B97C0564-85FE-4243-BEA5-382C226C819FPedalar tem me ensinado muitas lições de vida e me trazido sensações de bem-estar e liberdade. Ter autonomia para circular na cidade sem a dependência de transporte público ou carros é incrível. Geralmente faço meu trajeto em um tempo menor do que se fosse de metrô, ônibus e até mesmo carro. Libero endorfina no corpo ao pedalar, um exercício aeróbico, o que faz com que eu chegue de bom humor no trabalho e em meus compromissos. Pedalar também possibilita que eu controle minha ansiedade e medo além de aumentar minha autoconfiança por ser capaz de disputar espaço no trânsito com ônibus, carros, motos e caminhões.

F2335CA2-5238-44F6-A22F-EE6314EFF0D7Meu pai pedalou até os 70 anos. O que o forçou a parar foi a perda de parte da visão devido a um glaucoma. Quando voltei a pedalar, ele me deu várias dicas e acompanhou minha evolução. Planejei de fazermos alguns rolês juntos em lugares fechados onde ele pudesse pedalar sem se preocupar com o trânsito ou outros ciclistas. Pouco tempo de depois de eu comprar minha primeira bike, meu pai foi diagnosticado com câncer. Ele morreu no ano seguinte sem que eu conseguisse realizar meu plano de um pedal com o velho.

FBE28FE5-D9E3-4397-AFF8-0D676E7225DEToda vez que subo na minha Trek para fazer algum rolê lembro de meu coroa e como sou uma versão mais moderna e ranzinza dele. Espero um dia ter um filho para ensiná-lo a pedalar e lhe contar histórias de como o avô dele me ensinou a pedalar em uma Barra Forte duas vezes maior que o meu tamanho na idade de 10 anos.

As fotos de bicicletas que ilustram o texto foram tiradas por mim em minha última estadia em Nova Iorque entre outubro de 2019 e janeiro de 2020.

761A2634-FDD0-4C8E-8161-FED7251BDB5BPaz!

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