Sobre disputas, práticas e discursos políticos no feminismo negro

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Polêmicas movem o mundo da academia e o ativismo social, afinal, ser intelectual e ativista (ou ambos) é se colocar em um lugar constante de crítica e questionamento da sociedade como um todo através da análise de ideias e da política. Exemplos disso no universo negro são exemplificados pela polêmica entre William E.B. DuBois (1868-1963) com Booker T. Washington (1856-1915) nos Estados Unidos no início do século passado na qual divergiam sobre papel e o tipo de educação buscado pela população afro-americana e o impacto delas no processo de integração racial (leia mais AQUI).

No Brasil, o sociólogo Guerreiro Ramos (1915-1982) trocou farpas intelectuais nos anos 1950 com o também sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto (1920-2002) sobre afirmações realizadas por esse último sobre o Teatro Experimental Negro (TEN) em seu livro O negro no Rio de Janeiro: relações de raça numa sociedade em mudança (1953). Nesse caso, uma boa análise da polêmica pode ser encontrada na dissertação de mestrado do professor Muryatan Santana Barbosa sobre o pensamento de Ramos (leia mais AQUI, páginas 124-133).

Nos últimos dias uma polêmica envolvendo duas jovens mulheres negras intelectuais, Djamila Ribeiro e Andreza Delgado, tem sido objeto de atenção nas redes sociais. Gabrielly Oliveira publicou dias atrás o texto Que tem medo de notificação extrajudicial (leia AQUI) que resume a controvérsia que envolve formas distintas de interpretação sobre as questões de encarceramento e abolicionismo penal. Hoje minha amiga Márcia Lima publicou no Facebook um texto que pode ser lido como uma espécie de apaziguamento. Pedi permissão a Lima para reproduzir o texto dela aqui no Obuli. Segue.

Sobre disputas, práticas e discursos políticos no feminismo negro

Pensei muito antes de me manifestar sobre esta polêmica, mas acho que certas situações são boas para pensar o rumo e a forma das nossas atuações políticas. Tenho profunda admiração pela trajetória de Djamila Ribeiro. Acho importante mulheres negras ocupando espaços no debate público, na mídia, recebendo reconhecimento e projeção internacionais. Entretanto, a luta das mulheres negras se dá em muitas frentes e envolve muitas de nós: na academia, na militância, na militância na academia, na participação política, na representação política, na mídia etc.

O desentendimento entre Djamila Ribeiro e Andreza Delgado começou por conta do tema do encarceramento e do abolicionismo penal. Visões diferentes. Ponto. Nossas lutas em torno da igualdade racial podem ter agendas mais específicas e nem sempre vamos concordar sobre prioridades e estratégias de ação . Da mesma forma que nem todas vão receber os mesmos reconhecimentos e honrarias, o que não torna nossas agendas menos legítimas.

Achei a notificação extrajudicial desnecessária e desigual. Demandar que “as postagens sejam retiradas ou alteradas” não é uma forma de diálogo e sim de poder.

Envolver a questão do colorismo nesta discussão é um equívoco. Nos coloca no perigoso terreno de legitimidade racial, que nunca deu em boa coisa e que desqualifica as políticas públicas. Além disso, pesquisas apontam diferenças entre esses grupos, mas em muitas dimensões essa distância não existe. O encarceramento é uma delas.

Não há dúvidas sobre os ataques criminosos a pessoas negras que ocupam o espaço público. Mas definitivamente não vi racismo na postura e (nem na pele mais clara de Andreza), portanto, ela não deve ser tratada como tal.

Não podemos esquecer: “Ninguém solta a mão de ninguém”, pois ainda somos todas vulneráveis. No Capão Redondo ou em Paris.

Márcia Lima, Professora de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e Coordenadora do Núcleo de Raça, Gênero e Justiça do CEBRAP.

A imagem que ilustra o texto é do artista plástico Robinho Santana.

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