Não somos obrigados a gostar de todas as coisas idealizadas por pessoas negras

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Texto inspirado neste episódio do podcast “Still Processing” do NY Times.

Existe um ditado antigo que afirma “irmãos brigam em casa, mas na rua se defendem”, ou algo parecido, que significa um ponto de solidariedade, empatia e proteção mútua entre iguais. Arrisco dizer que talvez o sentido da palavra de irmandade venha daí – aliás, bom dizer que sentido é diferente de significado, mas isso fica para outro papo.

Dentro da comunidade negra, essa atitude de nos celebrar e apoiar toma um esfera maior quando consideramos que , como grupo minoritário, já contamos com adversidades e pedras o suficiente de pessoas que não entendem o nosso contexto. Essas pedras podem ser traduzidas como desprezo, desvalorização da cultura, preconceito e tudo o mais que compõe o universo do racismo. Esta camada protetora, e rede de apoio, entre nós funcionam como base de lançamento para muita coisa importante: valorização da cultura, destaque merecido para profissionais (artistas ou não) negros de talento, formação de grupos organizados para resolver problemas específicos, melhora de autoestima, preservação da saúde mental e muito mais. Muito valioso.

Ao mesmo tempo, criou algo complicado de lidar: a não autorização de criticar honestamente, e de ter o direito de não gostar de trabalhos, projetos, artes, música, posicionamentos ou o que quer que seja de pessoas negras. Ao mesmo tempo em que entendo a importância de nos apoiarmos, enxergo que a impossibilidade de desgostar de algo, ou mesmo de querer que seja melhor, e tecer essa crítica publicamente nos enfraquece. Por quê? Tudo necessita de senso crítico. É importante ter parâmetros, até mesmo porque são eles que nos dizem quando algo é genial , quando algo é bom, quando algo é médio e quando algo é ruim. Se tudo é incrível, nada é incrível.

É certo que forma e conteúdo precisam andar de mãos dadas. A crítica negativa gratuita não ajuda ninguém. Aliás, a crítica sem embasamento ou quando o embasamento vem de um lugar que não faz sentido – o próprio umbigo, por exemplo – não serve para nada além de machucar.  Lenny Kravitz lançou por esses tempos um refrão que me pareceu inofensivo no começo, mas bateu forte quando parei para pensar: “Don’t lift me up, to turn me down” (“Não me exalte para depois me desprezar”). Existe certa responsabilidade quando não criticamos algo com sinceridade e transparência.

Como esperar evolução de alguém, se não damos visibilidade sobre o que precisar ser repensado? Seja para alcançar recrutamento interno ou para conseguir aliados externos, é preciso ter discernimento sobre o que compartilhar como fortaleza e o que trabalhar como ponto de melhoria. É pensar estrategicamente não só sobre onde queremos chegar como comunidade, mas sim como faremos para alcançar, e se não pudermos ser sinceros um com o outro, mesmo quando “publicamente”, a tarefa vai ficar impossível.

Se tudo é incrível, nada é incrível.

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