Pelé e meu coroa: negros velha guarda! 

Pele-01Tenho uma certa empatia pessoal pelo maior jogador de futebol de toda a história. O motivo: meu pai. O coroa foi um grande fã do esporte bretão, era mineiro de nascimento, torcedor do Santos Futebol Clube e nasceu no mesmo ano que o Rei do Futebol. Aos 17 anos, viu o Brasil ser campeão do mundo pela primeira vez em 1958, evento no qual Pelé despontou para o estrelado. Meu velho fez sua passagem ano passado depois de uma luta de 18 meses contra um câncer. Eu, um corinthiano desligado de futebol, gosto até hoje de afirmar para meus amigos que meu pai era um preto “old school” ou velha guarda, como se diz no Brasil: chato, ranzinza e santista.

Voltemos a Pelé. Interessante um depoimento recente de Edson Arantes do Nascimento publicada na revista Veja ano passado. Não sabia da existência do mesmo até há alguns dias atrás quando um amigo de FB postou uma foto do artigo. Pesquisando posteriormente, vim a saber que ele foi publicado em 17 de novembro de 2017, ou seja, dias antes do feriado do Dia da Consciência Negra, comemorado anualmente no 20 de novembro. O título do depoimento é sugestivo: “Deus me pôs num caminho diferente da maioria da população”. A chamada logo abaixo afirma: “Pelé diz que nunca negou sua cor e sempre ‘gostou de ser negro’, mas a fama prematura obtida com o sucesso no futebol, aos 16 anos, livrou-o dos atos de racismo no cotidiano”. Surpresa. Pelé falando sobre a questão racial.

A maior parte das pessoas não entendeu a fala do ídolo. A totalidade dos comentários na página de meu amigo acusava o Rei do Futebol de ter sido negligente com a discussão racial no Brasil durante toda a sua carreira. De fato, Pelé não é nenhum Muhammad Ali. Sempre se esquivou de falar racismo. Contudo, são pouquíssimos os jogadores de futebol que se aventuram a discutir uma questão tão espinhosa. As grandes estrelas se omitem, mesmo que eles sejam lidos racialmente como não brancos, caso de Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e, mais recentemente, Neymar. Os que foram alvo de racismo e reagiram de forma mais ativa muitas vezes foram taxados de radicais, eis os exemplos de Grafite, Tinga e o goleiro Aranha.

Voltando a Pelé, sua afirmação faz muito sentido quando analisada de forma mais detalhada. O racismo é uma prática que se dá em relação a uma população socialmente lida como negra. Contudo, a prática da discriminação – cerceamento de direitos – toma lugar em situações muito específicas. O preconceito/racismo/discriminação no Brasil, como afirmava o sociólogo Oracy Nogueira, ocorre orientado pela “marca” em detrimento dos Estados Unidos onde o mesmo tem como base a “origem”. Em termos práticos, isso significa que as pessoas tendem a discriminar no Brasil considerando a fenotipia (textura do cabelo, formato da boca, nariz, lábios e cor da pele) ao ponto que nos EUA é a ascendência da pessoa, ou seja, o fato de ela/ele estar vinculado de forma consanguínea ao grupo negro. Isso gera uma lógica que confunde brasileiros e estadunidenses já que pessoas que são classificadas como negras nos EUA podem ser lidas como brancas no Brasil e vice-versa.

Pelé, por sua vez, é escuro o suficiente para ser lido como negro (e discriminado por isso) tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Porém, o negro Edson Arantes do Nascimento se tornou uma figura pública internacionalmente conhecida, Pelé. Seu rosto é reconhecido por ser considerado o melhor jogador de futebol de todos os tempos, o Rei do Futebol. Nessa lógica, Pelé conseguiu, ao menos nas suas interações sociais no Brasil, transcender a lógica da raça e do racismo cotidiano. O nome Pelé é mais forte e poderoso do que a dinâmica social do racismo brasileiro porque Pelé é considerado uma pessoa, diferente do que ocorre com 99,9% da população negra brasileira.

Não sei o que me coroa iria pensar disso. A verdade é que ele se interessava mesmo em ver o Santos jogar e ganhar, com ou sem Pelé.  Era um negro velha guarda.

Paz!

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5 comentários Adicione o seu

  1. Valter José Maria Filho disse:

    Pelé não pode ser relativizado. Pelé é como Charles Chaplin para o cinema, ou Louis Armstrong para o jazz.

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    1. Márcio Macedo disse:

      Obrigado pelo comentário, Valtinho! Contudo, quando você diz que “Pelé não pode ser relativizado”, você está concordando ou discordando da minha análise sobre a fala dele em relação ao racismo?

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  2. magda isabel disse:

    Muito triste o Pelé não ter assumido sua filha negra que era a cara dele. Pediu o DNA que foi comprovado e mesmo assim ele não quis dar o apoio e muito menos um tostão.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Márcio Macedo disse:

      Obrigado pelo comentário Magda! Sim, é muito triste a história da filha. Mas o pessoal sempre apresenta esses eventos para afirmar que ele se omite em relação as várias paradas (no caso da filha acho que é uma questão de caráter). Contudo, nesse depoimento acho que ele está sendo bastante preciso. O que você pensa disso?

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      1. magda isabel disse:

        Tem a precisão histórica não resta dúvida, mas tem o simplismo e a inocência de um jovem negro do interior paulista que enriquece num país racista e, não se dá conta. Depois ao envelhecer percebe que caiu no grande engôdo do país da democracia racial. Mas, também ele precisa ser dividido em dois seres: O Pelé e o Edson, e daí é uma outra história!

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