A magia de escrever, ter o texto comentado e relembrar

635893009514457270353123990_writing-cycleTodos os escritores do Obuli estão sumidos. Sim! Devido aos diversos trabalhos, estudos e outras obrigações não estamos conseguindo escrever e muito menos nos ver. Sempre marcamos, sempre furamos. Assim sendo, esse post é um ensaio de volta. Sinto saudades de meu brotha Jun Alcantara e da minha sistha Nubiha Modesto. Saudades das nossas reuniões regadas de café, cheese cake, ideias, cervejas, comentários maldosos e risadas. Também sinto falta do processo de escrita e ler textos interessantes, sejam meus ou dos meus dois amigos.

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Estou nostálgico assim porque hoje estava fuçando no meu laptop velho (ano que vem ele faz 10 aninhos) e achei um texto que provavelmente foi publicado no meu antigo blog, o NewYorKibe. Ele leva um título sugestivo e foi comentado por uma grande amiga que já não vejo há alguns anos. É também uma bela forma de entender como as pessoas dialogam com nossos escritos. No mundo de “likes“, “dislikes” e textões que nossa vida virtual se tornou, coisas assim – diálogo e discordâncias com elegância – são cada vez mais raras. Segue então o texto. As partes em vermelho são os comentários de minha amiga.

Xô Felicidade… O Que Aconteceu com a Melancholia? Maravilha de título, e chiquérrimo melancolia com CH.

Vivemos num mundo cada vez mais chato. Todo mundo é feliz ou deve aparentar ser feliz. A maior parte de meus amigos colocam mensagens no Facebook, no Orkut, no Messenger ou no Twitter dizendo o quanto são abençoados e felizes, agradecidos por tudo que tem e vem conquistando na vida. Correntes de felicidade entopem meu email. Ninguém mais sentei (Ta esquecendo as conjugações verbais do port. É?) (ou quer sentir) tristeza ou ao menos melancholia. Todo mundo é e precisa ser feliz, estupidamente/urgentemente feliz…

Enfim, tô ficando com raiva de quem é feliz! Não suporto ver casais apaixonados na rua trocando beijos em público (ta foda a dor de cotovelo, ein?! Cruzes! Rsrsrsrsrsrsr), crianças correndo no parque com um enorme sorriso após ganhar um sorvetinho do papai e velhinhas conversando alegremente com suas amigas em coffee shops em fins de tarde. Mais: sinto ódio (ódio? Porra… vai ser condenado por seus seguidores) só de pensar que daqui a alguns meses começará todo aquele frênesi pelo Natal e a necessidade incondicional de estar feliz nessa época do ano. Odeio finais de ano e a sua felicidade! Vou passar meu Natal e virada de ano no frio gelado de NYC, sozinho, assistindo DVDs de filmes do Quentin Tarantino (contei mãe, não espere por mim esse ano e nem conte com o meu presente no amigo secreto da família Macedo) e tomando Bud Light, urgh!

Anos atrás tomava uma cerveja com meu velho parceiro de cachaça Daniel Pereira. Cara antenado, leitor de Nietzsche, Foucault, Camus, autor de um dos livros (elaborado como dissertação de mestrado) mais criativos do departamento de sociologia da USP nos últimos e bêbado convicto. Na ocasião Daniel falava do seu incomodo com essa obrigação de ser feliz. Precisamos desesperadamente ser felizes e, caso não estejamos, há alguma coisa de errado conosco. Livros de auto-ajuda – O Segredo e os escritos psicografados e palestras da “família do além”, Gasparetto, – vendem a rodo, consultas com astrológos, pais de santo e ida à igrejas onde pastores prometem a felicidade que é não é eterna e nem pós- morte, mas é prometida nesse mundinho mesmo e rapidinho. Caso se tenha um pouco mais de grana e se esteja muito, mas muito triste, cuidado… Você pode estar sofrendo de depressão e aí será necessário uma consulta a um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra (não me pergunte o que os diferencia!).

Até eu já fui ao psicólogo achando que precisava de ajuda (Vc não acha mais? – rsrsrsrsrsrsr). Na minha época de graduação na USP a vagabundagem andava comendo solta e me auto-diagnostiquei um procrastinador inventerado que deixava todos os trabalhos e leituras do curso pra última hora certo de que minha inteligência era suficiente para dar conta de tudo tirando uma nota que ficasse entre 9 e 9.5. Quando tirava 8 ficava mal e entrava em… Depressão! Aí valia tudo pra melhorar desde conversas com amigos bêbados às 5 da manhã até preces e muitas velas pro Benê (São Benedito!). Fui à psicóloga e fui diagnosticado como sofrendo com carência de amor além de ser maníaco/depressivo. Durante minhas sessões, sempre pedia um remedinho, mas ela nunca me prescrevia nada. Parecia que tudo ia se resolver quando percebi que estava indo nas sessões de terapia só para ver a psicóloga que era uma gracinha. (Vc não perde uma, ein? Rsrsrsrsrsr) Repentinamente a tristeza voltou quando descobri que ela estava prestes a se casar. Que injustiça a dela com a minha carência de amor… E novamente fiquei com raiva porque estava triste e não feliz! (rsrsrsrsrsr) A coisa se resolveu mesmo quando decidi seguir o lema de meu amigo Uvanderson Vitor: “Enquanto existir a Skol e eu estiver bêbado, não entro em depressão!” Funciona, viu. Éramos bêbados tristes/felizes todas às sextas das 18 horas em diante!

Engraçado que muitas pessoas piram na batatinha no mundo acadêmico fazendo dissertação de mestrado ou tese de doutorado. Ou seja, a universidade não é um lugar de pessoas felizes (vai ver é por isso que estou aqui). Todo mundo entra em crise, fical mal, perde mulher/ marido, namorado(a), toma remédio e deixa de trepar. Tenho uma amiga que durante a fase de escrita da dissertação de mestrado perdeu todas as gordurinhas que eu tanto adorava nela – gosto de mulheres gordinhas e bundudas – e até hoje não voltou ao normal. Tudo bem que ela continua LINDA mesmo sem os quilinhos a mais. Outro tentou passar direto do mestrado para o doutorado sem dar um tempo a si mesmo e, no meio do processo, levou uma bica da namorada: ficou lelé, remedinho nele! Que inveja… Aqui na New School tem até uns psicólogos com convênio com a universidade para atender os alunos que ficam pancada no processo de elaboração da dissertation. Eu, infelizmente, não tive o prazer de viver a crise da escrita uma vez que estava perdidamente apaixonado – e feliz, estupidamente feliz! – pela minha ex-namorada quando estava escrevendo minha dissertação há três anos atrás. Que chato! (irritante mesmo!!!! Rsrsrsrsrs mas tb estava feliz e de namorado baiano novo, no meio de 2001, quando defendi, embora antes, em 2000, tenha terminado um namoro de 7,5 anos)

Outra coisa que enche o saco são todos os hábitos que uma pessoa deve ter/seguir para ser feliz e ter uma vida saudável. Yoga, comida orgânica, capoeira angola (rsrsrsrsrsrsrsrs – só angola?), alguma religião (ou como se diz atualmente, “ser espirituoso, mas não religioso”), vegetarianismo, exercícios diários, comunicação com a pessoa que se ama/mora/trepa, pouca ou nenhuma bebida alcoólica, Kama Sutra, comer pouca carne, sucos naturais, sexo tântrico, terapia de casal, dormir oito horas por dia, filosofia oriental, pouca televisão, pouca Internet, ler todos os livros do chatérrimo Dalai Lama e disciplina, muita disciplina. E pensar que tudo isso é o que há de mais descolado numa cidade como NYC. Urgh!!!!!! O caminho da felicidade é árduo, mas é possível chegar lá! (li este texto em versão impressa no sábado enquanto almoçava no quilo usual. Bem aqui nesse ponto, soltei uma alta gargalhada, a mulher em frente a mim falou: Nossa, vão pensar que você é maluca!!!! Rsrsrsrs Eu disse: É! Mas ninguém ta lendo isso aqui que leio, ai ai. Meta-se com a sua vida. A gargalhada é minha, eu solto onde quiser, né não? – as duas últimas frases não articulei, só pensei mesmo. rsrsrs)

Pois é, vivemos numa época em estar infeliz é uma falta de educação. Ouvir o quarteto de Miles Davis tocando Blue Green enquanto se toma um conhaque às três da manhã e se está prestes a cair em prantos são coisas para serem feitas longe de todo mundo, no recanto do lar, e não ser contado a absolutamente ninguém. Ouvir Nina Simone então cantando Solitude em público é sinal de anomalia. Mas um leitor atento deve estar a pensar: “O cara tá falando mal de quem está feliz porque na verdade está com inveja, está numa dor de cotovelo fenomenal e quer estragar o bem bom dos outros!” Sim e não. A dor de cotovelo existe, mas…

Não quero aqui ser irônico e repetir a máxima que ouvi ou li em algum lugar: “O otimista é um pessimista desavisado.” A verdade é que me inspiro um pouco no texto escrito por Barbara Ehrenreich para o New York Times intitulado The Power of Negative Thinking. Nele a autora defende uma posição no mínimo interessante. Arguindo contra toda uma onda de positive thinking onde livros de auto-ajuda e líderes motivacionais se tornaram extremamente populares e penetrado no mainstream da cultura norte-americana, a autora afirma que eles são em parte responsáveis pela crise economica que vem castigando o país há mais de um ano. O argumento de Ehrenreich é simples. Positive thinking retira a racionalidade das ações das pessoas ao afirmar que basta pensar e ter uma atitude positiva em relação ao mundo que os problemas se resolverão ou o sucesso virá. Esse tipo de pensamento seria tão influente na sociedade americana atual que permearia as ações de grandes corporações economicas em parte responsáveis pelo colapso econômico visto recentemente.

Indo além, a autora mostra como a grandeza econômica da sociedade americana foi moldada em parte devido a uma perspectiva negativa da vida. Para isso ela retorna a ética calvinista que permeava os primeiros colonizadores do país e que tinham uma posição ascética do mundo onde trabalho árduo e acúmulo de bens, ainda que valorizados/estimulados, não eram uma garantia da salvação (leia o clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo [1904] de Max Weber [1864-1920]).

Em minha opinião Ehrenreich quase acerta o alvo. Seu erro é encarar a economia como um ciência exata, algo totalmente equivocado. Mesmo o argumento da ética calvinista deve ser colocado num contexto de imprevisibilidade, uma vez que Weber evidencia que o fato do capitalismo moderno nascer a partir da ética protestante não era um resultado previsto uma vez que suas ações visavam com fim a salvação (ou um sinal de serem os escolhidos) e não acúmulo. (Não posso fazer crítica à sua opinião, por pura ignorância intelectual, mas que é interessante essa relação “cultura para a felicidade” e “mercado de produção da felicidade” é. Acho que não só a onda de “positive thinking” tira o discernimento das pessoas, mas toda a cultura consumista mesmo, que só é capaz de ver fonte de felicidade em bens materiais. Esse movimento da sociedade capitalista ou neo-liberal em que vivemos é em si enlouquecedor, gerador de uma ansiedade intensa, na medida em que não se é nada se não se tem coisas.) Meu argumento é bem mais simples. Crises, tristeza/melancolia e pensamento negativo são elementos transformadores e criativos. A felicidade vendida em filmes, livros de auto-ajuda ou numa vida balanceada é um utopia que continua a nos cegar por conta do medo que temos de aceitar que nossas vidas são permeadas por dramas e crises. (Concordo, Kibe! Mas a vida não é só crise nem drama, né? Seu lado ácido está em alta neste texto)

A verdade é quando se olha para indivíduos que produziram coisas absurdamente lindas e inspiradoras, a maior parte deles se constituíia (na grafia antiga, a nova não sei) de uns famigerados tristonhos, depressivos, drogados, maníacos/ depressivos e farrapos humanos. Billie Holiday (1915-1959) foi violentada ainda menina por um vizinho, durante toda a vida foi psicologicamente dependente de homens que a exploravam e a espancavam e morreu de forma absurdamente triste mesmo tendo esbanjado uma forma sexy, cool e linda de cantar temas que estilizavam a melancolia ao extremo. Leia a letras de Strange Fruit e My Man e você entenderá. Charles Mingus (1922-1979), começa a sua autobiografia descrevendo uma noite de orgia em que havia transado com cinco mulheres. Após terminar o relato ele solta uma gargalhada para, logo em seguida, cair aos prantos diante de seu psiquiatra. Sua música incorporava todas essas oscilações e surpreendem um ouvinte desavizado. Thomas Mann (1875-1955) escreveu A Montanha Mágica (1924) após uma experiência num sanatório onde se internou para se tratar de tuberculose. Marcel Proust (1871-1922) descreveu a experiência melancólica de sua vida problematizando sua constante enfermidade (asma) e homossexualidade em seu Em Busca do Tempo Perdido.

A lista de gente triste e melancólica que produziu coisas belas é longa indo de Friedrich Nietzsche (1844-1900) a Francis Bacon (1909-1992). Mas não se intimide, a “verdade” é que ainda sim “precisamos ser” felizes. Custe o que custar, até mesmo a última gota de sangue, a última…

(A idéia da melancolia produtiva vc sabe que eu comungo com vc, né? Acho mesmo que a malancolia não produz só obras artísticas interessantes, mas até felicidade, viu? Na é uma felicidade carnavalesca, pra fora, sabe? Mas uma felicidade íntima, quase indizível, intraduzível, porque ela não parte do “ter”, nem do “ser poderoso”, nem do “ter prestígio social” seja ele qual for. Hoje mesmo comentava sobre essa felicidade íntima com uma amiga que me conhece desde que cheguei aqui em Salvador. Ela falou o quanto essa temporada aqui tem sido boa, o quanto eu amadureci. Porra, daí falei pra ela dessa felicidade que não conto a ninguém, porque não é uma felicidade calcada em vantagens sociais de qualquer ordem, é uma espécie de ganho só meu. Como se estivesse mais próxima do que acredito, sabe? Olho pra trás e vejo o quanto caminhei e o quanto tenho feito escolhas melhores que as do passado, entende?

Acho mesmo, Kibe, que você ainda não se deu conta. Mas, ao sair de SP para um outro país, vc escolheu sair do lugar, se abrir ao novo e procurar mundos mais de acordo com o que vc quer pra vc. De longe vejo que vc tem caminhado, muito! Talvez a felicidade a que vc faz referência no texto seja utópica ou inalcançável mesmo. Mas há outra, dessa outra, íntima, quase ninguém fala, mas também porque quase ninguém teve o tempo que estou tendo aqui (e acredito que vc esteja tendo aí), para me rever profundamente, encarar minhas sombras, pra não ficar estacionada sob elas. É isso! Sabe que meu ar professoral nunca vai embora. Adorei o seu texto. Adoro suas reflexões, mas não podia deixar de falar isso agora no fim.

Boa sorte na vida nova que vc tem escolhido, viu?)

Beijo, beijo beijo!

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