Moonlight: sob a luz do luar

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Conheci o trabalho de Barry Jenkins em 2009, seis meses após chegar a Nova York. Passava por um cinema do West Village e vi um cartaz de um filme que me chamou a atenção, porém estava com pressa e acabei não me detendo a averiguar do que tratava a película. Alguns dias depois uma amiga brasileira me enviou uma mensagem no Facebook dizendo: “Se eu estivesse aí, assistiria esse filme…” E foi assim, que Medicine For Melancholy se tornou a narrativa de minha vida na terceira década de minha existência. Lindo, sofisticado e intrigante (leia mais AQUI). Passaram-se mais de seis anos e Jenkins não filmou mais. Sempre me perguntava: o que foi que aconteceu.

Ontem chequei o site do New York Times e eis que um dos destaques era justamente Jenkins (leia o texto do Times AQUI). Seu novo filme, Moonlight (2016), vem sendo considerado um dos mais bonitos do ano. A história do filme é baseada na infância, adolescência e parte da vida adulta de Tarel Alvin McCraney, um ator e dramaturgo que nasceu e cresceu em Liberty City, bairro negro de Miami e, por coincidência, também lugar de origem de Jenkins. Jenkins tem 37 anos e é um ano mais velho que McCraney. Ambos viveram no bairro até meados dos anos 1990 e início dos anos 2000, período no qual a maior parte dos guetos negros nos EUA vivia a epidemia do crack.

É difícil imaginar que Miami entraria no mapa da produção cultural negra de forma tão complexa através de Moonlight. Em minha cabeça, as únicas coisas negras que associava a Miami eram as letras dos desbocados do 2Live Crew, um dos grupos de rap ícone do estilo sulista (Miami Bass) nos anos 1980/1990. Miami se destacaria no hip-hop novamente nos anos 2000 com Rick Ross, originário do bairro de Carol City onde fundou o grupo Carol City Cartel. Para quem é brasileiro (mas não muito chegado a rap), Miami está associada ao lugar de destino de endinheirados brazucas que se cansaram da vida no “país tropical abençoado por Deus” e foram, mais do que “fazer”, “viver” a América.

Moonlight fala de como é nascer e crescer em um bairro negro infestado por drogas tendo a mãe viciada e traficantes como referência. Em um primeiro instante tem-se a impressão que essa poderia ser a temática clássica de qualquer gangsta movie dos anos 1990 como Boys N The Hood (1992) – no Brasil Os Donos da Rua – e Menace To Society (1994) – Perigo Para a Sociedade -, filmes respectivamente dos diretores John Singleton e dos Hughes Brothers. Mero engano. Moonlight trata sim de temas como drogas, violência e maternidade/paternidade. Contudo, o que parece ser a grande temática da película é uma discussão a respeita da construção da masculinidade de homens afro-americanos da classe pobre. Esse é um traço que liga o autor do roteiro original, McCraney, e o diretor do filme, Jenkins.

McCraney se define como “gay-identified“, Jenkins é heterossexual. Ambos foram criados por mães que foram abusadas sexualmente, conceberam seus filhos ainda adolescentes e se viram diante das dificuldades de criá-los sozinhas em um bairro pobre, violento e infestado por crack. Ambos viram suas mães se tornarem portadores do vírus HIV depois de se viciarem em crack. Por outro lado, isso não impediu que os dois tivessem futuros brilhantes. Algo que se deu por contingências de estar no lugar certo na hora correta, ler um anúncio de mural da faculdade e ter tido um professor ou professora que marcaria um ou outro de forma positiva. Jenkins estudou cinema na Florida International University e depois se mudou para San Francisco, onde filmou Medicine… cujo o roteiro é baseado em experiências pessoais. McCraney se graduou pela DePaul University em Chicago e seguiu para a Yale University School of Drama onde obteve um mestrado e atualmente dirige o departamento de dramaturgia.

A escrita do roteiro que deu origem a Moonlight se deu em 2003, quando McCraney tinha apenas 22 anos e acabara de perder a mãe. A escrita, segundo ele, foi uma forma de lidar com a dor da perda, construir o luto retratando sua infância e adolescência a partir de lembranças esparsas. Em 2011, um amigo de McCraney e Jenkins enviou o roteiro para Jenkins por email. Bingo! O diretor está inserido em um grupo de cineastas que estão dando novos formatos estéticos ao cinema afro-americano complexificando a identidade racial a partir de articulações com classe, orientação sexual/sexualidade, gênero, nacionalidade e diferenças geracionais. Um bom exemplo desse nova “onda” (não tão “nova” assim!) é a produção de um grupo de ex estudantes de cinema da New York University apadrinhados por Spike Lee (ex aluno e professor da instituição). Um dos filmes de maior impacto foi Pariah, dirigido por Dee Rees em 2011. A película retrata a descoberta da lesbianidade por uma jovem negra do Brooklyn, NYC, e  o difícil processo de aceitação da família.

Enfim, Moonlight é um filme para ser visto. Provavelmente entrará em cartaz no Brasil por conta das boas críticas que vem recebendo e das suspeitas de que irá concorrer ao Oscar (acabo de ler aqui na web que a data prevista é 23 de fevereiro). Ironia: só assim para assistir “filme de negrão” no cinema no Brasil, tem que concorrer ou ser “suspeito” de que vai concorrer ao Oscar. Lembram-se de 12 Anos de Escravidão? Ridículo!

Em tempo, lembrei de mais uma personalidade afro-americana que é de Miami e poderia estar muito bem envolvido com a temática do filme: Carl Hart, neurocirurgião e  professor da Columbia University que está inovando a forma de se abordar e pesquisar a temática das drogas. Vale muito a pena ler o seu livro Um Preço Muito Alto: a jornada de um neurocirurgião que desafia nossa visão sobre as drogas (2014). Mas isso é história para outra conversa.

Assista ao trailer de Moonlight logo abaixo!

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