Uma verdade sobre transição capilar

Em meados de 2012 decidi que queria usar meu cabelo da forma como ele nasce, isso significou abandonar os alisantes, relaxantes, tinturas e apliques de cabelo humano. Nunca tive problemas em fazer mudanças radicais de visual, aprendi com minha mãe, cabeleireira de mão cheia, que cabelo taí para nos divertirmos. Se der errado (e muitas vezes deu), ele cresce de novo.

Em uma tarde de sábado, passei a tesoura no que restava de química e voilá: cabelos virgens pela primeira vez desde os 7 anos de idade. E foi aí que começou uma das fases capilares mais trabalhosas que vivi. Ao contrário do que tinha visto e lido nos milhares de vídeos e artigos sobre transição, os meus cabelos super crespos exigiam quase o dobro de manutenção e tempo para cuidar.

Ah, o mito do wash and go (lavou tá pronto)

Além disso, todos os vídeo tutorias sobre TWA (Tiny Winy Afro) se anularam a cada tentativa de modelar meus fios. Minha mãe, sabida das coisas, já havia me alertado, mas a teimosia me impedia de entender, que a minha textura poderia até ser parecida com as das várias moças de penteados incríveis no vídeo, mas NÃO era a mesma. E isso, colegas, faz toda a diferença. Mais crespa e rebelde, impossível de modelar com as técnicas apresentadas – dos twists às tranças umidificadas com gel, creme, pomada, secador e todos os aparatos possíveis – bateu um arrependimento instantâneo. E eu morri de vergonha de ter sentido isso, fingi que estava tudo bem e que estava amando. Meu mecanismo julgador implacável, me obrigou a ficar quieta, mas nossa! Como foi sofrido!

Eu sei que de 2012 para cá muita coisa mudou, mas não consigo deixar passar batido que esse  tipo de depoimento não é facilmente encontrado. Pode existir arrependimento sim. Não porque o cabelo está crespo, mas porque ele está bem longe de todas as suas referências e expectativas crespas – sem definição, opaco, aspecto acinzentado e com cara de não penteado.

“Ah, mas você não sabia pentear, é por isso!”

Também , mas sejamos sinceras: as discussões sobre crespos geralmente se concentram em texturas que podem ser classificadas como cacheadas. As conversas que vão além da definição de cacho, costumam parar no fio de tipo 4 e o 4C* não é lá muito discutido. Mesmo em grupos dedicados a ele, notei que boa parte das postagens exploram fios muito mais abertos que isso. Cabelo que molha e cacheia, saca? Os que parecem, mas não são, que me frustraram no começo.

(Importante: desfilar com um super crespo e com cachos, por mais fechados que sejam, são experiências MUITO diferentes, mas isso é tema para outro papo)

source: http://www.rightringlets.com/2014/12/know-your-hair-type/
escala de padrão de cacho: 4C é o mais crespo que existe.

 

Mulheres com a textura mais crespa que o 4C – nós existimos – não possuem muitas fontes acessíveis de pesquisa, já que a maioria dos conteúdos relacionados ainda estão em inglês (e eu tenho culpa nisso porque nunca contribui com nenhum conteúdo relacionado). Como é incomum encontrar essa história por aí, a gente insiste que está fazendo algo errado até conversar com outra pessoa na mesma situação e trocar dicas. Eu fui aprendendo com o tempo, mas é importante dividir meu sofrimento até eu desenvolver minhas próprias formas de criar texturas e penteados que me agradassem. Eu não me olhava no espelho direito, é importante eu contar isso também. Mamãe também ajudou muito, dividiu truques antigos e eficazes – ela usou o cabelo 100% crespo até meados dos anos 80.

natural-hair-meme-1

Meu intuito com esse texto é contar para você, moça super hiper crespa , que pensa em parar com a química ou que está um pouco desesperada porque ainda não consegue lidar com o seu cabelo, que será difícil. Não só porque as pessoas, inclusive da sua família, vão te olhar e sugerir milhares de “soluções” que envolvem fazer seu cabelo parecer menos crespo e te deixar irritada com opiniões não solicitadas, mas porque VOCÊ terá dúvidas sobre ter feito “a coisa certa”. Calma, respire e conte até 10. É assim mesmo!

Os braços cansam de ficar tanto tempo para cima. No seu histórico do Youtube e do navegador esse tema reinará absoluto por algum tempo. Nenhum creme ou vitamina parece bastar para ele aparentar hidratação e saúde. Arrumar os cabelos pela manhã pode te tomam uns 50min, e cada lavada significa algumas horas de dedicação. Parece ruim, eu sei. Mas não é não!

Você passa a entender sobre a textura do seu cabelo, descobre novas formas de beleza, se arrisca em penteados inéditos, assume que, em alguns vários dias, ele não vai ficar bacana por conta da umidade, do tempo seco, da maresia ou da personalidade própria, e entende que o ‘perfeito’ é perda de tempo. Mas nota que quando ele fica do jeito que você planeja, o esplendor é incomparável. O “good hair day dura” ao menos 01 semana e as descobertas que te levaram até ali são reproduzidas cada vez mais rápido. Independência capilar, pronto!

para você não desanimar, minhas fases: do “socorro!” até o “♥︎”

Tenha paciência, vá cuidando do seu jardim aí no topo da cabeça. Leva um pouco mais de tempo e paciência, mas depois que ele floresce, tudo é justificado.

Aqui, alguns links para ajudar nesse comecinho:

Tem um texto bem legal da Naomi Faustino , do The Black Cupcake, sobre a transição dela. Vale clicar.

Nota da importante: Este artigo aborda uma experiência pessoal com a questão de transição capilar. É bastante claro que cada mulher tem uma experiência diferente relacionada diretamente à textura, tipo e quantidade de cabelo, experiências que não me cabe classificar como mais ou menos trabalhosas. O intuito deste artigo é contar sobre um lado não muito abordado da fase de transição e adaptação dos fios super crespos, além de apontar que apesar de hoje termos mais materiais, as referências de cabelos o 4C ,ou supercrespos, ainda são pouco exploradas.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Liamar disse:

    Que legal ler isso!
    Nós 4c existimos e estamos aí… Resistindo!
    Amei ler seu texto, fez diferença na minha caminhada. 🙂

    Curtir

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