O Skeeter é negro?

Quem foi criança ou adolescente em meados da década de 1990 provavelmente assistiu ao desenho Doug, na TV Cultura. Era muito bom acompanhar as histórias e as viagens da mente de Doug Funny, o protagonista, ao lado de seu cão Costelinha, sua paixão Patti Maionese, seu arqui-rival Roger Klotz e seu melhor amigo Skeeter Valentine. Como adolescentes ou crianças negras sentíamos a falta de personagens com os quais conseguíssemos nos identificar completamente. Não entra em questão suas personalidades, mas sim de ver lá na tela alguém fisicamente parecido com a gente. Víamos adultos em filmes americanos, mas em desenhos dificilmente víamos negros sendo representados. Por isso, nos projetávamos em figuras específicas, onde víamos alguma ligação. Panthro dos Thundercats, por exemplo, era um clássico personagem visto como negro por crianças negras. Mesmo que todos fossem felinos humanoides, a ligação racial era óbvia. Enquanto Panthro era careca, tinha boca e nariz largos, todos os outros tinham cabelos lisos (na maioria loiros ou ruivos), e nariz e bocas afinadas. Além do quê, Panthro era o mais forte fisicamente (tsc, tsc). E não era uma ligação a toa: Panthro era uma pantera negra. O quê nos mostra que ele realmente foi projetado para representar um homem negro.

Em Doug, apesar de sua família ser branca, os outros personagens apresentavam cores de pele variadas. Alguns laranja, outros verde, outros roxos… Pensando de forma rasa, até acharíamos que os personagens não eram racialmente delimitados. No entanto, a dinâmica e papéis dos próprios personagens nos mostram o contrário. Patti Maionese, paixão de Doug, apesar de ter um tom de pele alaranjado e escuro, tem os cabelos loiros e ondulados. O próprio alaranjado da pele pode nos sugerir que é uma moça branca e loira que curte se bronzear – mas que não fica vermelha. Roger Klotz, de pele verdade, tem os cabelos vermelhos e grossos. Quantos personagens ruivos, bully e encrenqueiros podemos encontrar em seriados e filmes americanos? Vários. Dos nossos tempos, acho que o mais célebre (e odiado – mais que o Chris!) de nossos tempos é o Caruso, que atormenta a vida de Chris no seriado “Todo mundo odeia o Chris”. Como no caso do Panthro, acredito que como eu, várias crianças negras imaginavam Skeeter Valentine como negro. Vamos juntar os dados: do núcleo principal, Skeeter era o personagem com a cor mais escura. O azul, não raramente, é uma cor usada para comparar ou representar pessoas negras. Até de forma pejorativa.

(…se quiserem podem continuar a ler o texto ouvindo “People who are darker than blue” do maravilhoso Curtis Mayfield, sugestão minha!)

skeeter

Seu cabelo não indicava ser crespo, mas o corte, rapado dos lados e quadrado em cima, nos sugere que talvez usasse um hi-top fade (No Brasil conhecido como “o cabelo do Will Smith no seriado”). Ele era o mais descolado. Suas gírias eram usadas apenas por ele. Suas roupas eram coloridas (lembrem-se que o desenho animado é do início da década de 90). Fazia beatbox. Era um sneakerhead (definição para um tipo específico de pessoas que amam e colecionam tênis). Até ensinou Doug a dançar. E como no caso do ruivo Roger, quantos filmes e seriados vemos um protagonista branco com um melhor amigo negro? Vários. Na escola onde estudei quando criança, um dos poucos garotos negros além de mim, se parecia com o personagem e eu dizia aos meus amigos “esse cara parece o Skeeter do Doug!”. Era um barato pois eles – todos brancos – concordavam. Assistindo ao desenho, muitas crianças faziam essa ligação, mesmo não sabendo explicar a razão.

O criador Jim Jinkins não pensou conscientemente em fazer um personagem negro, embora as pessoas sempre mencionem Skeeter como negro ou o questionem sobre a origem do garoto azul. No entanto, mesmo que Jim não tenha pensado conscientemente sobre as características de Skeeter, a soma dos fatores resulta no estereótipo de um garoto negro descolado do início dos anos 90. Para o bem ou mal, para o privilégio de alguns e desgraça de outros, o sistema em que vivemos nos leva a enquadrar membros de minorias em estereótipos. E não é que os estereótipos sejam sempre mentirosos, mas o fato é que são limitantes. Faz com que as pessoas sejam levadas a desempenharem papéis sociais traçados por um sistema que privilegia os que não são comumente estereótipados (justamente por não serem minoria). O caso do nosso querido Skeeter Valentine, de modo não muito óbvio, fez com quê várias crianças negras se sentissem mais acolhidas ao assistirem o desenho. Claro que não é o ideal. O ideal seria que tivéssemos desenhos em que personagens negros são protagonistas e desenhos mais etnicamente variados, representando a diversidade em que vivemos, sem precisar recorrer a estereótipos motivados pela falta de personagens não-brancos em desenhos animados.

E sabe o quê é que eu tô querendo agora? Um desenho só do Skeeter. Honk-honk!

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