O que aconteceu, Ms Simone?

Demorei para assistir o documentário sobre Nina Simone. Antes de finalmente faze-lo, ouvi algumas manifestações de surpresa e indignação. Indignação não contra a figura de Nina, mas pela forma com que escolheram contar a sua história. Já adianto que eu não sou profunda entendedora de Nina e sua música. Mas sinto que depois de quase 2h de história, consegui enxergar um pedaço de sua trajetória como pessoa. Me uni ao grupo dos indignados.

Um incômodo estranho foi crescendo conforme a história se desdobrou. Confesso que ele nunca mais foi embora.

O brilhantismo técnico e dom artístico de Nina, enaltecidos o tempo todo por serem incomparáveis. Seu grande sonho e desejo era atuar como pianista clássica. Não deu. Nina foi ser o que achavam que ela deveria ter sido, e apesar disso ter trazido fama, conforto e reconhecimento, não trouxe o que ela mais buscava. Tenho para mim que ela nunca se encontrou e , ao longo da vida, o vazio a afetou profundamente.

Como uma das artistas e vozes mais ativas da época, foi muito importante para o ativismo negro dos anos 60. Chegou a arriscar sua carreira quando se posicionou com todas as letras, e sem nenhum pudor, ao lado do movimento dos direitos civis. Emprestou sua voz, corpo e gritou sem medo. Ali Nina finalmente descobriu um possível propósito por trás do que fazia, arrisco a dizer que não sei quem foi mais importante para quem: Nina para o movimento ou o movimento para Nina. Talvez tenha sido uma troca extremamente necessária para os dois lados. O fato é que junto aos protestos e clamores por igualdade, direitos e respeito, feitos através da música, ela também gritava por si, pelo direito de ser.

Era para ser um desabrochar lindo, mas Nina murchou. Quando começava a se encontrar, foi impedida de prosseguir e se perdeu no caminho.

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Ninguém realmente a entendeu. Trabalhou desde muito cedo, correu atrás de coisas que não eram seu maior desejo desde sempre, presa num relacionamento abusivo, vivenciou racismo, machismo e psicologicamente muito doente. Viveu um misto perigoso de depressão, transtorno bipolar, ansiedade e muitas angústias que se misturavam num caldeirão sombrio, e apareciam no dia a dia. A sanidade por um fio e , ainda assim, empurrada pro palco.

Precisava dizer isso com mais cuidado, mas não consigo ver de outra forma: é espantoso como a violência contra mulher foi naturalizada nesse documentário. Ninguém parece se incomodar muito, falam das agressões e denúncias de agressão , escritas em cartas, como se fossem parte inevitável da trajetória. Como se ela merecesse ser punida, afinal, “era uma péssima mãe”, “muito temperamental”, “agia de forma louca”, “era muito agressiva ou qualquer outra desculpa terrível.

Na tela, por vários minutos, o homem que violentou Nina, física e psicologicamente, por anos a fio, fala sobre como ela foi ingrata, era descontrolada e jogou sua carreira fora. Tudo isso em uma biografia sobre sua vida e carreira, a violência continua mesmo de forma póstuma.

“What happened , Ms. Simone?” é cru, não existe compaixão. Nina sofreu as mesmas coisas que mulheres doentes em relacionamentos abusivos sofrem, e assim como elas, é culpada pela violência que sofreu. Num registro de solidão e isolamento , se abandona e constrói castelos de areia, diversas vezes, enquanto se torna uma das maiores artistas do seu tempo. Carregou uma tristeza enorme dentro do peito até o fim da vida, por não ter sido o que sonhava, e podia, ser. Em alguns momentos ela confessa: “Eu acho que eu teria sido feliz”.

Sobre: What Happened, Ms Simone? – https://www.youtube.com/watch?v=iuN3SGzLGmw (disponível no Netflix)

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