Mohamed Husen: um ator negro no cinema nazista

(tradução e adaptação do texto original do blog Shadow & Act

A versão cinematográfica alemã, de 1943, do filme “As Aventuras de Baron Munchhausen”, foi filmada 40 anos antes da versão, melhor e mais conhecida, de Terry Gilliam sobre este mesmo personagem ficticío.

Existe uma seqüência estendida no filme,  que se passa no palácio de um sultão turco, com vários figurantes negros interpretando escravos e guardas do harém. É claro que, considerando a época e local em que o filme foi rodado, você pode pensar que os papéis dos escravos era interpretado por atores alemães brancos em blackface.

Mas não, eles são realmente interpretados por homens negros, o que leva à imediata dúvida de onde, em pleno ano de 1943, eles encontraram homens negros na Alemanha nazista.

Minha única conclusão é de que eles eram prisioneiros do campo de concentração, ou soldados inimigos capturados, obrigados a interpretar aqueles papéis; muito provavelmente, soldados capturados do exército francês já que , um fato pouco conhecido, a grande maioria dos homens daquele exército era composta por homens negros e árabes das colônias do Oeste e Norte da África, e Oriente Médio.

Eu falo de tudo isso para contextualizar a história de Mohamed Husen, cujo verdadeiro nome era Majub bin Adam Mohamed Hussein. A história dele é particularmente incrível e, claro, muito trágica. Mas é importante para contar a história de pessoas negras, e de pessoas não brancas, na Alemanha durante aquele período – aqueles que eram sortudos o bastante sobreviviam.

Husen nasceu em 1905 onde agora é localizada a Tanzânia, durante o período em que o continente Africano inteiro era dividido em colônias pelos britânicos e outros europeus, como franceses, alemães, belgas, holandeses e portugueses. Na tenra idade de 09 anos, durante a 1ª Grande Guerra, ele se tornou um soldado criança em Askari, onde tropas de elite nativas ajudavam os alemães à manter o controle sobre seus domínios.

Depois da guerra, Husen se tornou um comissário de bordo de navio, eventualmente chegando à Alemanha – primeiro em Hamburgo, e depois em Berlim, onde entrou com uma petição contra o governo para  conseguir os pagamentos atrasados  de seus serviços, e do seu pai morto em combate , ao exército alemão.

Não é preciso dizer que riram dele e o expulsaram do país. Mas, por conta de um erro burocrático, ele acabou ficando na Alemanha como imigrante ilegal, sem documentos, e foi trabalhar em um circo. Chegou a ensinar Swahili para funcionários do governo que eram direcionados para trabalhar nas colônias africanas.

Enquanto isso, achou tempo para casar com uma atriz alemã branca e ter dois filhos – um casal, sendo que ambos morreram muito jovens antes de completar 05 anos de idade.

Porém, em meados da década de 30, começou a aparecer em filmes alemães, e se tornou um rosto comum em cerca de 11 filmes, de 1934 a 1941, sempre como figurante, ou em um papel pequenos com algumas falas.

Nem é preciso dizer, assim como em vários filmes feitos naquele período,  Hitler e o nazismo eram exaltados e  as ‘virtudes’ da pureza racial ariana e do colonialismo também. É dificil não se perguntar o que Husen estava pensando, ou passando, no momento em que trabalhava naqueles filmes.

Como um artigo do The Guardian diz “…no meio da década de 30, ele estava vestido com uniforme militar e aparecendo em protestos na frente de banners que carregavam o slogan ‘A Alemanha precisa de mais colônias”. Que tipo de conflitos internos ele deveria estar vivendo? Era um caso de sobrevivência, sendo um estrangeiro em uma terra estranha, sabendo que ao trabalhar naqueles filmes e estar naqueles protestos era melhor do que ser mandado para um campo de concentração?”

As coisas eventualmente se tornaram ruins para ele . No filme ‘Carl Peters’, de 1941, sobre a vida real de um colonizador alemão, onde Husein interpretava um papel coadjuvante do servente de Peter, descobriram que ele estava tendo um caso com uma atriz branca do elenco, e ele foi preso pela Gestapo, e enviado para o campo de concentração em Sachsenhausen. Morreu 03 anos depois em 1944.

Não existe muito mais informação sobre Husein. Nenhum diário, correspondência e pouquíssimas fotos existem. Felizmente, um documentário foi recém lançado sobre Husein , do cineasta alemão Eva Knopf, entitulado “Majub’s Reise” (“Viagem de Majub”), que traz atenção ao ator, lhe dando uma identidade, enquanto junta peças e fatos do que é sabido sobre ele. Segundo o IMDB, este documentário foi exibido na Alemanha, claro, e no Brasil. 

Tudo isso confirma algo importante de lembrar: não existe nenhum lugar na história do mundo, durante qualquer período, em que nós (pessoas negras) não estivéssemos presentes.

Nota pessoal: O documentário, ao contrário do que se espera, não retrata Majub como herói. Apesar de ele não ser  o que os nazistas queriam , ele também está longe de ser o que desejamos que fosse: um símbolo de luta forte contra nazismo, racismo e fascismo alemão. Majub optou não ser nenhum dos dois, trilhou um terceiro caminho. Caminho esse que muito provavelmente, nunca descobriremos ao certo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s