Black Lives Matter: os dilemas de uma nação cindida entre raças

Em 21 de março de 2012 – Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Discriminação Racial – participei de uma manifestação (Millions Hoodies for Trayvon Martin March) na Union Square Park, Village, Nova York, em apoio ao indiciamento de George Zimmerman, pela morte de Trayvon Martin em 26 de fevereiro daquele ano na Flórida. Martin, um adolescente negro, havia saído da casa do pai para comprar doces e um refrigerante e foi morto a tiros por Zimmerman, um vigia de um bairro de classe média. O caso fomentou uma discussão nacional sobre violência policial e racial profiling nos EUA dos anos 2000 e da era Obama. É sempre bom lembrar que a posse de Obama em 2009 veio coroada de esperanças em um novo momento racial, que os mais otimistas (para alguns, tolos) denominaram de post-racial America. Quatro anos se passaram. Nesse interlúdio Zimmerman foi indiciado e absolvido, seguiram-se mais e mais casos de abusos e mortes de negros causadas por policiais capturadas em câmeras de celular. Contudo, a raiva e senso de injustiça veio à tona com toda força nas manifestações raivosas de Ferguson em retaliação à morte do jovem Michael Brown em 2014, baleado desarmado pela polícia. Nesse amontoado de eventos surgiu o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), um novo e controvertido momento da história do movimento negro norte-americano pós direitos civis.

Noite de terça, 5 de julho de 2016. Tomo um vôo em São Paulo em direção à Nova York. Depois de três anos distante da Big Apple eu voltava para visitar amigos/as, descansar e resolver pendências acadêmicas. Ao chegar no Harlem na manhã de quarta, sinto um misto de alegria, nostalgia e tristeza. O bairro, que foi minha casa durante vários anos, mudou em uma velocidade vertiginosa. Prédios antigos e lindos foram demolidos dando lugar a construções opacas de vidro e aço que lembram áreas nobres e feias de São Paulo. Um Whole Foods, supermercado chique e careiro, anuncia sua chegada na 125 Street em uma área que, até minha volta para o Brasil em 2013, era apenas um terreno vazio. A gentrification – processo de especulação imobiliária, que alguns chamam de “economia urbana hipster” (veja AQUI) – e os brancos de classe média e alta estão tomando o bairro.

A 125 Street, centro comercial do Harlem negro, ainda continua tipicamente negra e popular com seus hustlers vendendo coisas de procedência duvidosa, mulheres gordas transitando pelas calçadas com crianças e usando roupas curtas, som alto dos carros, gritaria, camelôs africanos vendendo bugigangas, bancas de frutas, patrícios musculosos que fazem do semáforo da 125 Street com a Lenox um aparelho de academia a céu aberto, adolescentes barulhentos e idosos que cumprimentam você com um sorriso e um good morning. Fico triste em saber que tudo isso dará lugar a um bairro majoritariamente branco, com lojas caras de grife e coffee shops limpinhas nas quais ninguém interage entre si, mas apenas com seus laptops, iPads e iPhones.  As liquor stores darão lugar às wineries e a chatice do estilo de vida WASP/hipster boutique reinará sobre o que antes foi a Meca Negra dos EUA. Esse dia ainda não chegou, mas virá. Reportagem do The New York Times de 2010 (leia AQUI) afirma que os afro-americanos já não são maioria dos residentes do Harlem.  Outro artigo mais recente publicado no mesmo jornal e de autoria de um historiador morador do bairro (leia AQUI )  anuncia a morte do velho Harlem. Triste!

Na quinta saio perambulando pela cidade. Um calor delicioso de 35 graus, considerando que havia saído de uma São Paulo em pleno inverno. Pego o trem 2 e vou para downtown caminhar pela região próxima à New York University (NYU), lugar que costumava passar minhas noites estudando. Depois de algum tempo mais andando a esmo chego à Union Square Park, a mesma praça em que quatro anos atrás eu havia participado de um protesto contra a violência policial e o caso Trayvon Martin. Policiais cercam a praça, civis negros e negras – alguns poucos brancos – se reúnem em grupos e falam entre si de forma indignada. Cartazes e palavras de ordem são gritadas em intervalos inconstantes. Novamente estou em uma manifestação: Black Lives Matter.

Dias antes da manifestação a morte de dois homens negros – Alton Sterling e Philando Castile – fez com que a indignação e revolta da população afro-americana viesse à tona nos EUA. Sterling foi morto ao ser abordado e baleado por dois policiais em frente a uma bodega onde vendia CDs. A ação foi filmada por um indivíduo que passava pelo local. Castile foi morto dentro do carro, na frente da filha de quatro anos e da namorada que, com o celular ligado, filmou o ocorrido. No mesmo horário da manifestação em que eu me encontrava presente na Union Square Park outra passeata do Black Lives Matter ocorria em Dallas, capital do Texas. Surpreendentemente, nesse evento cinco policiais seriam mortos por um atirador negro, Micah Jones, um veterano  do Exército, em retaliação à violência policial. Uma semana e meia depois, Gavin Long, um ex sargento negro da marinha que serviu no Iraque, seria morto após balear e matar três policiais (um deles negro) em Baton Rouge, capital da Louisiana, mesma cidade na qual Sterling fora morto.

Em menos de duas semanas, essa série de eventos trágicos descritos acima lançaram luz sobre o drama que configuram a questão racial nos EUA: medo e raiva por parte da população negra e indiferença e desconhecimento por parte da maioria dos brancos. Entretanto, quando policiais são assassinados por jovens afro-americanos em ações planejadas que podem ser vistas como retaliação à violência da polícia em relação à população negra, uma nova dimensão é adicionada a essa problemática. Com exceção da revolta de Nat Turner (no século XIX), dos discursos de Malcolm X, nos anos 1950 e 1960, e da ideologia presente na fundação e estruturação dos Black Panthers e nos escritos de George Jackson, nunca houve nas lideranças negras mais proeminentes  dos EUA um posicionamento que proclamasse a violência como estratégia de ação política. Embora as ações dos atiradores de Dallas e Baton Rouge ainda sejam vistas como atitudes isoladas e desconectadas de qualquer grupo político, elas são sintomáticas do grau de insatisfação, ansiedade e paranóia que toda a população negra compartilha nos EUA contemporâneo. Em uma sociedade fundada em armas e com fácil acesso a elas, isso deveria ser visto como alarme para toda a população.

Alguns dias antes de viajar para Nova York fui entrevistado por um jornal de São Paulo (leia AQUI) para uma matéria sobre segregação racial nos EUA devido ao funeral de Muhammad Ali em sua cidade natal, Louisville, Kentucky. Uma das perguntas feitas a mim fazia referência a origem do racismo nos EUA. Pergunta típica de jornalistas: explique a origem da vida em três frases. Pois bem, o racismo norte-americano é tão velho quanto o próprio Estados Unidos. A noção de raça – desde sua concepção equivocada baseada em noções supostamente biológicas até o seu entendimento mais acertado como categoria construída social e historicamente – permeia todas as relações entre os estadunidenses. E o racismo, como um sistema de distribuição desigual de privilégios e recursos baseados na raça, premia os socialmente vistos como brancos em detrimento de não brancos. Nada muito diferente do que ocorre no Brasil. Desnecessário dizer que capitalismo e racismo sempre andaram de mãos dadas, o que confirma uma afirmação feita certa vez por Malcolm X. Sendo assim, no país da maior economia capitalista mundial impera também um racismo vigoroso que tem sido atualmente renovado com discursos de ódio, separação e violência que se consubstanciam em narrativas explicitadas, por exemplo, pelo candidato à presidência pelo partido republicano, o magnata Donald Trump (assista AQUI vídeo do jornal The New York Times que acompanhou vários comícios do candidato).

O Black Lives Matter, Freedom & Justice for all Black Lives foi a novidade dos últimos anos no universo das lideranças políticas e movimentos sociais afro-americanos. Fundado por três jovens mulheres afro-americanas – Patrisse Cullors, Opal Tometi e Alicia Garza – logo após o homicídio de Travon Martyn em 2012, ele é composto maciçamente por jovens negros e negras e conseguiu catalisar a energia e dinamismo necessário para fazer frente a problema mais evidente nas relações raciais norte-americanas: a violência policial. Na sua página da Internet (acesse AQUI) o movimento se auto identifica como “um fórum online intencionado em construir conexões entre pessoas negras e seus aliados para combater o racismo anti-negro, fomentar diálogo entre pessoas negras e facilitar os tipos de conexões necessárias para encorajar ação social e envolvimento”.

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Em minha opinião, é o uso estratégico de novas ferramentas tecnológicas de informação que traz dinamismo ao Black Lives Matter tendo como parâmetro movimentos políticos recentes que se aproximam disso como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe. Ao se colocar como um “fórum online intencionado em construir conexões entre negros e seus aliados para combater o racismo anti-negro” e divulgar sua ideologia e posicionamento através de espaços virtuais como Twitter, Facebook, Instagram além do seu próprio site, ações performáticas no ambiente virtual, uso de imagens e protestos físicos em vários lugares de forma simultânea, o movimento se vincula a forma como os mais jovens se comunicam e concebem a ação política.

A ideologia presente no movimento também defende uma espécie de proeminência da questão racial e exploração dos negros como problema estruturante dos grupos oprimidos nos EUA. Essa perspectiva pode ser notada pelo trecho seguinte, presente na página do grupo no tópico “quando pessoas negras se libertam, todos se libertam:

#BlackLivesMatter não significa que a sua vida não é importante – significa que as vidas negras, as quais são vistas como sem valor dentro da supremacia branca, são importantes para a sua libertação. Dado o impacto desproporcional que a violência de estado tem sobre as vidas negras, entendemos que quando pessoas negras neste país alcançarem liberdade, os benefícios serão enormes alcançando e transformando a sociedade como um todo.”

Uma das facetas mais interessantes do Black Lives Matter é seu posicionamento crítico em relação as várias formas de discriminação situadas dentro da comunidade negra e que gera invisibilidade para determinados grupos como a comunidade negra GLBTT, imigrantes negros ilegais, negros encarcerados ou com ficha criminal, dentre outros. De acordo com o texto,“Black Lives Matter é uma contribuição única que vai além das matanças extra judiciais de pessoas negras pela polícia e vigilantes.  Ele vai além do nacionalismo estreito que pode ser prevalecente dentre de algumas comunidades negras, o qual meramente clama que pessoas negras amem outros negros, viva sua negritude e compre Black, mantendo homens negros heterossexuais cis à frente do movimento enquanto nossas irmãs, queers e trans e deficientes assumem papéis ao fundo ou nenhum. Black Lives Matter afirma as vidas das negras e negros queer e trans, deficientes, ilegais, fichados, mulheres e todas as vidas negras ao largo do espectro de gênero. Ele foca aqueles que tem sido marginalizados dentro dos movimentos de libertação negra. Ele é uma tática para reconstruir o movimento de libertação negra.”

A despeito de ter sido fundado por três mulheres, o rosto mais evidente na mídia do Black Lives Matter até recentemente era de um homem: DeRay McKesson. Com 31 anos, McKensson é oriundo de Baltimore, Maryland, e ganhou notoriedade nos protestos de Ferguson em 2014. Em 2015, ele mais os ativistas Johnetta Elzie, Samuel  Sinyangwe e Brittany Packnett fundaram o Mapping  Police Violence (acesse AQUI), um site que mapeia os casos de violência policial em todo os EUA. A chamada do site na noite em que escrevo esse texto (27/7/2016) afirma que a “polícia matou no mínimo 346 pessoas negras nos Estados Unidos em 2015”. Em fevereiro de 2016 McKensson entrou de última hora nas primárias do partido democrata para concorrer a candidatura para a prefeitura de Baltimore, Maryland. Acabou derrotado.

Mas talvez a ênfase na figura de McKesson pela mídia tenha algum sentido para além de uma tradicional e sexista maior exposição das lideranças masculinas dos movimentos negros, algo criticado pelo manifesto do Black Lives Matter como vimos. Homens negros são o principal alvo da violência oriunda do racismo institucional vigente nos EUA. Esse aspecto pode ser verificado pelos índices de encarceramento, desemprego, pobreza, dependência/abuso no uso de drogas lícitas e ilícitas além dos índices de letalidade desse grupo. Um dos aspectos mais cruéis desses números é a violência de estado contra homens negros. No livro Between the world and me (2015) – publicado no Brasil pela Editora Objetiva  (leia um trecho AQUI) –, o jornalista e ativista afro-americano Ta-Nehisi Coates faz um relato em forma de carta ao filho adolescente do que significa ser homem, jovem e negro em uma sociedade que vê esse contingente da população com uma ameaça em potencial. Coates cita em seu relato os casos mais conhecidos de indivíduos mortos ou que sofreram abuso policial nos EUA entre 2012 e 2015. O texto toma ainda mais força quando o autor relata a morte de um amigo dos tempos de universidade vítima desse mesmo tipo de violência.

Ponto importante a ser lembrado é que as forças policiais sempre contribuíram para a efetivação e manutenção do racismo dos EUA. A diferença entre o período anterior aos anos 1960 para o atual é que em um contexto em que o racismo não está mais assentado em leis, o braço armado do Estado – a polícia – pode ser questionado no que diz respeito às suas ações, táticas e índices letalidade. Isso era bem diferente anteriormente. Exemplo disso é que entre os anos 1960 e início dos anos 1970 uma série de militantes dos Black Panthers foram executados pela COINTELPRO, um programa secreto de contra inteligência montado pelo FBI cuja a direção à época era de J. Edgar Hoover.

É nesse bojo recente de casos polêmicos de violência policial e protestos que muitas vezes descambavam para o enfrentamento com a polícia, como nas manifestações de Fergunson em 2014, que o Black Lives Matter foi galgando sua legitimidade e apoio. Algumas lideranças e políticos conservadores tem criticado o movimento. O argumento defendido por esses é que o discurso do Black Lives Matter incita a ações violentas e não estabelece diálogo. O ponto interessante é que é justamente por conta de uma pauta ou agenda política mais radical que o Black Lives Matter tem tido uma inserção maior entre a juventude negra dos EUA – incluo no adjetivo “negra” todos os jovens que são socialmente identificados como negr@s e passíveis de sofrerem algum tipo de discriminação; há na sociedade estadunidense uma linha demarcatória que distingue afro-americanos de outros negros como imigrantes africanos, caribenhos, afro-latinos dentre outros.

O potencial do Black Lives Matter é de justamente conseguir construir alianças políticas que unam esses grupos, algo que aconteceu nas duas campanhas presidenciais de Baraki Obama para presidente em 2008 e 2012. Essa mesma juventude reconhece a importância da figura de Obama, mas se ressente da atuação tímida ou quase nula do presidente em lidar com a questão racial em ações mais pragmáticas (em um entrevista recente, meu amigo historiador Flávio Thales Ribeiro Francisco sugere que Obama contribuirá muito mais para a causa negra após deixar a presidência, leia AQUI). Paradoxalmente, o Black Lives Matter tem mais dificuldade de estabelecer alianças fora da comunidade negra devido a sua perspectiva política que prioriza a população negra, uma espécie de resquício do nacionalismo negro que o Black Lives Matter se filia e que foi a base de grupos radicais como os Black Panthers.

As dúvidas que ficam são: os tiros disparados por Micah Jones e Gavin Long, responsáveis por matar oito policiais, atingiram também a crescente popularidade e reputação do Black Lives Matter? Até que ponto, de fato, as “vidas negras importam” na sociedade estadunidense?

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