A contradição do Afropunk e de ser um negro alternativo

Dentro de uma cultura hegemonicamente branca, ser negro já te faz alternativo, diferente. De um modo ruim, é claro. Diferentes em relação a quem? Já disse a escritora portuguesa Grada Kilomba: “Eu só me torno diferente se a pessoa branca se vê como ponto de referência, como a norma da qual eu difiro. (…) Eu não sou discriminada porque eu sou diferente, eu me torno diferente através da discriminação. É no momento da discriminação que eu sou apontada como diferente”. Mas ser negro e alternativo/diferente dentro da sua própria cultura também não é fácil. Ainda mais quando também somos alternativos dentro de uma cena de uma cultura alternativa majoritariamente branca, caso nos identifiquemos com ela. Mas, peraí, isso tá muito difícil de entender, cara. Então eu vou explicar melhor…

Jimi Hendrix, que até 1966 participava ativamente de variados grupos de soul e blues como membro contratado da banda, teve que sair dos Estados Unidos e ir para a Inglaterra para conseguir se tornar um astro. Todos sabiam que ele era um músico fora do normal. Mas ele não poderia ser ele. “Como assim um negro misturar nosso sagrado blues com o quê Bob Dylan e The Beatles fazem, e disso sair algo diferente de tudo?”, dizia a comunidade negra. O som dos Beatles era de origem negra, mas já modificado, então não era exatamente o som que a maioria dos negros queria ouvir. E “como assim esse negro querendo ser um rockstar?” diziam os brancos. Sorte dele ter partido pra Inglaterra, lugar não menos racista, mas que no entanto parecia aceitar a mistura da música negra contemporânea com outros gêneros com mais naturalidade.

Mesmo após o estouro, Jimi Hendrix nunca teve um amplo alcance dentro da comunidade negra de seu próprio país, por não ser o que imaginavam que ele seria. Por não estar dentro do ideal do quê um jovem negro deveria ser e fazer. O mesmo com Basquiat, que só uns 20 anos após sua morte passou a ser amplamente conhecido e divulgado como um ícone da negritude. Basquiat não se encaixava, tal qual Julius Eastman ou o Living Colour. Até Bob Marley & The Wailers quando desembarcaram nos EUA na década de 1970 não conseguiram chamar a atenção como todos imaginavam. Dreadlocks ao invés de afros redondos? Como assim? Exemplos não faltam.

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Bad Brains, banda pioneira do hardcore punk

Mas e a situação pra quem não é artista? De gente que tem empregos comuns? E falando especificamente dos negros que são punks?  Apesar dos ideais explicitamente libertários da cena punk, não podemos dizer que não existe racismo lá dentro. Pergunte aos primeiros punks negros ingleses se eram tão queridos assim quanto o conto-de-fadas igualitário da história punk prega. Ou se era mole pros Bad Brains, banda que construiu as estruturas do hardcore punk, tocarem pra um público esmagadoramente (ou totalmente) branco. Você não se encaixa muito bem dentro da sua própria comunidade, por ser punk, e dentro da cena punk também não se encaixa muito bem, por ser negro. E isso não foi só lá atrás. Continua acontecendo. Foi percorrendo por essas questões que o documentário Afro-Punk foi gerado, em 2003. O diretor James Spooner explora a negritude, som, perspectiva e solidão de negros que escolheram o punk como estilo de vida ou que, ao menos, que escolheram o punk rock como uma das energias que impulsionam suas vidas.

Foi a partir desse documentário que o Festival Afropunk foi criado, em 2005, dando espaços para bandas punks com membros negros se apresentarem e unirem forças para a construção de uma cena mais forte. Mas dez anos depois da criação do festival, o Afropunk expandiu suas fronteiras, dando espaço não só a bandas e artistas do punk, mas também do R&B, soul, rock alternativo e rap, que caminham por lugares menos óbvios da música negra. Artistas negros alternativos, podemos chamar. Além de grandes e consagrados nomes como D’Angelo, Lauryn Hill e Lenny Kravitz. É legal (sim!) que haja um festival que aponte que (sim!!) é possível ser negro e fugir dos arquétipos baseados nos clichês existentes no Hip Hop e R&B contemporâneo. Nem toda mulher negra quer ser Nicki Minaj ou Rihanna. E nem todo homem negro quer ser Kendrick Lamar ou Jay-Z. Precisamos alargar e muito as noções do quê é ser negro, nosso entendimento sobre nós mesmos. Os brancos possuem uma vasta opções de arquétipos, ícones e pessoas em quem podem se inspirar. Nós precisamos, também! Não podemos nos afundar em auto-rejeição por conta dos padrões eurocêntricos, nem merecemos ter nossa negritude questionada ao sairmos do caminho que parecia ter sido reservado para nós…

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Punk negra, início da década de 1990 (foto: Ben DeSoto)

Ideal lindo, não é? Funciona muito bem dentro desse meu texto. Já os antigos frequentadores do festival reclamam, não pelo crescimento mas pela mudança total de direção em seus ideais. Tem o afro mas tem muito pouco punk: apenas algumas bandas punk tem espaço na line-up do festival. Com isso, o público inicial do festival já se afastou, não interessa mais. “Posso ver o D’Angelo ou Janelle Monaé em várias outras oportunidades, mas a reunião das bandas punks que curto só tinha aqui e não tem mais”, dizem. Os punks saíram de lá e voltaram ao que existia antes dos primórdios do festival.

Outra crítica é de que o Afrohispter, digo, Afropunk vem se tornando cada vez mais algo parecido um desfile de moda. O público, todo produzido, vai com a intenção maior de aparecer nas centenas de páginas (do mundo todo, inclusive do Brasil) que irão divulgar as fotos do festival. Uma vitrine preta gigante. O que deveria ser uma mudança de mentalidade já tem até um formato definido: tranças sintéticas e cabelos coloridos, shorts curtos, batas africanas, chapéus e óculos redondos. Parece que até pra ser diferente é necessário se encaixar num padrão. E o negro que não se encaixa no padrão mainstream e nem no recém-criado padrão alternativo continua sem ter pra onde correr.

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